Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial

BARROSO, K S W. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial. Arq Bras Cardiol. 2020

Pressão Arterial

Pressão arterial (PA) elevada, tabagismo, obesidade, dieta não saudável e atividade física insuficiente são fatores de risco cardiovasculares para hipertensão arterial (HA). Vamos abordar um pouco sobre o tratamento não medicamentoso que embasam as condutas recomendadas sobre tabagismo, padrão alimentar, sódio, potássio, laticínios, chocolate e produtos com cacau, vitamina D, suplementos e substitutos, perda de peso, consumo de bebidas alcoólicas, atividade e exercício físicos.

Padrão Alimentar

Os padrões alimentares considerados saudáveis têm sido associados à redução da pressão arterial (PA). A dieta DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension) foi capaz de reduzir a PA, sendo o efeito atribuído ao maior consumo de frutas, hortaliças, laticínios com baixo teor de gordura e cereais integrais, além de consumo moderado de oleaginosas e redução no consumo de gorduras, doces, bebidas com açúcar e carnes vermelhas. O alto teor de potássio, cálcio, magnésio e fibras, com quantidades reduzidas de colesterol e gordura total e saturada. A dieta do Mediterrâneo, assim como a DASH, é rica em frutas, hortaliças e cerais integrais, além de ser pobre em carnes vermelhas. Apresenta teor elevado de gorduras, devido ao consumo de quantidades generosas de azeite de oliva (rico em ácidos graxos monoinsaturados) e inclui o consumo de peixes e oleaginosas, além da ingestão moderada de vinho tinto. Essa dieta reduz o risco de eventos cardiovasculares, mas os efeitos sobre a pressão são modestos.

Sódio e Potássio

A restrição na ingestão de sódio para ± 1,8g/dia associou-se à redução de 5,4 mmHg na PAS (pressão arterial sistólica) em indivíduos hipertensos. Exemplos de alimentos ricos em sódio: carnes processadas (presunto, mortadela, salsicha, linguiça, salame), bacon, carne-seca, nuggets; enlatados (extrato de tomate, conserva de milho, de ervilhas), queijos (amarelos: parmesão, provolone, prato), temperos prontos (Arisco, Sazon, molho de soja [shoyu], molho inglês, ketchup, mostarda, maionese, extrato concentrado, temperos prontos, amaciantes de carne e sopas desidratadas) e lanches industrializados (chips, batata frita e salgadinhos). Uma parte da estratégia para reduzir o sal é ler os rótulos nutricionais de todos os alimentos e escolher aqueles com baixo teor de sal (cloreto de sódio) e outras formas de sódio, destacando-se o consumo de vegetais frescos, congelados ou enlatados “sem adição de sal” e o uso de ervas, especiarias e misturas de temperos sem sal para cozinhar e à mesa.

Potássio

Vários ensaios clínicos randomizados conduzidos em agregados populacionais testaram a substituição do sal de cozinha à base de cloreto de sódio por apresentações de sal com baixo teor de sódio e elevado de potássio, os quais resultaram em redução da PA. Uma metanálise de intervenções com restrição de sódio mostrou que utilizar substitutos do sal (cloreto de potássio em substituição ao cloreto de sódio variando de 25% a 50%) reduziram significativamente a PAS. São alimentos ricos em potássio: damasco, abacate, melão, leite desnatado, iogurte desnatado, folhas verdes, peixes (linguado e atum), feijão, laranja, ervilha, ameixa, espinafre, tomate e uva-passa.

Laticínios, chocolate e cacau

Os laticínios representam um potencial efeito benéfico, como a proteína do soro do leite (whey protein), os fosfolipídios da membrana dos glóbulos de gordura, o cálcio, magnésio, potássio, probióticos e as vitaminas K1 e K2. Estudos sugerem que o consumo de laticínios apresenta associação inversa ao risco de doenças cardiovasculares e apresentam efeito hipotensor modesto, em especial, os laticínios pobres em gordura. Em chocolates e produtos com cacau, uma metanálise identificou a redução de 4,5 mmHg e 2,5 mmHg nas pressões sistólica e diastólica, respectivamente.

Café

Além de ser rico em cafeína, possui compostos bioativos como polifenóis, em especial os ácidos clorogênicos, magnésio e potássio, que podem favorecer a redução da PA. A ingestão de café a longo prazo não tem sido associada a maior incidência de HA. Pelo contrário, as metanálises de estudos mostram que o consumo de café se associou a um efeito discreto de redução no risco de hipertensão. Na falta de evidências experimentais robustas, recomenda-se que o consumo de café não exceda quantidades baixas a moderadas (≤ 200 mg de cafeína).

Exercício físico e perda de peso

A perda de peso parece ter efeito hipotensor, há uma relação praticamente linear entre PA e índices de obesidade. A adiposidade corporal excessiva, especialmente a visceral, é um fator de risco importante para a elevação da PA, que pode ser responsável por 65 a 75% dos casos de HA. A perda ponderal reduz a PA, mesmo sem alcançar o peso corporal desejável. A prática regular de atividade física (AF) diminui a incidência de HA. Além disso, os hipertensos que alcançam as recomendações de prática de AF para a saúde apresentam uma redução de 27 a 50% no risco de mortalidade.

Álcool e tabagismo

Existe uma relação linear entre consumo de bebidas alcoólicas e PA, e o consumo abusivo está associado a maior prevalência de HA. Entre indivíduos que consomem bebidas alcoólicas, a ingestão não deve ultrapassar 30 g de álcool/dia, ou seja, uma garrafa de cerveja (5% de álcool, 600 mL), ou duas taças de vinho (12% de álcool, 250 mL) ou uma dose (42% de álcool, 60 mL) de destilados (uísque, vodca, aguardente). Esse limiar deve ser reduzido à metade para homens com baixo peso, mulheres, indivíduos com sobrepeso e/ou triglicerídeos elevados.

O tabagismo caracterizado não apenas por uso de cigarro, mas também de charuto, cigarrilha, cachimbo, narguilé e cigarro eletrônico. O uso de tabaco eleva a PA cerca de 5 a 10 mmHg, em média, mas não há estudos mostrando o efeito benéfico da cessação do tabagismo sobre o controle da HA.